Antes destino de garimpeiros, o local hoje seduz turistas com fauna e flora conservadas, pinturas rupestres e paredões de quartzo

Parque Estadual do Rio Preto, refúgio precioso em Minas Gerais

 

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SÃO GONÇALO DO RIO PRETO

Areia fina, céu azul, água cristalina e peixinhos que parecem dar boas-vindas. Um refúgio no meio de Minas Gerais, o Parque Estadual do Rio Preto desperta a atenção logo na entrada com sua estradinha de terra vermelha e árvores de caule retorcido. Localizado na cidade de São Gonçalo do Rio Preto, na Serra do Espinhaço, fica distante 70 quilômetros da histórica Diamantina; o marco inicial da Estrada Real está em suas terras. Além de água, em abundância, tem pinturas rupestres, paredões de quartzo e ricas fauna e flora.
Há 20 anos, quando o parque foi criado, a região era castigada por garimpeiros em busca de diamantes, que poluíam e assoreavam as águas do Rio Preto. Além dos garimpos, uma madeireira retirou as maiores árvores dos lugares de mais fácil acesso. Mas, se antes a região atraía garimpeiros e madeireiros, hoje seduz turistas e pesquisadores.
Antônio Augusto Tonhão de Almeida foi o idealizador do parque. No início da década de 90, foi eleito prefeito de São Gonçalo e teve como bandeira preservar as áreas de mananciais do município. De porte grande e vozeirão, está sempre pronto a ajudar os visitantes. Nos feriados de movimento maior, é possível vê-lo com a mesma disposição de duas décadas atrás, dentro do valente fusca ano 1993, circulando pelas estradinhas e comunicando-se com os funcionários por meio de um velho rádio.

 

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A estrutura.O parque oferece 12 alojamentos, simples, mas muito confortáveis, para até 52 pessoas. Há também área de camping para 30 barracas. De quinta-feira a domingo, o restaurante serve delícias mineiras, preparadas com esmero por dona Maria da Conceição Santos.
Cartões de visitas do parque são as duas principais cachoeiras, do Crioulo e Sempre-Viva. Para chegar até elas, é preciso caminhar por uma trilha de 13 quilômetros, ida e volta, com a presença obrigatória de um guia. O caminho é repleto de sempre-vivas, uma linda espécie de flor típica da região. Árvores como a capitão do cerrado e o umbuzeiro vão compondo o cenário.
Trechos íngremes de subida levam a uma vista deslumbrante do vale, do Rio Preto e de um de seus principais afluentes, o Córrego das Éguas. O pico mais alto do parque, o Morro Dois Irmãos, de 1.830 metros de altitude, também é avistado. Há três mirantes para apreciar a paisagem: o do Monjolo, o da Pedra e o do Lajeado. Ideais para uma pausa para o lanche embaixo das frondosas sucupiras-brancas.
Depois da trilha pelo cerrado, um inesperado bosque de mata de galeria, com brisa suave e temperatura amena. Árvores menos retorcidas, mais altas e mais próximas umas das outras começam a aparecer. Uma pequena ponte de madeira anuncia a proximidade com a cachoeira. É hora de entrar na água e sentir os pequenos lambaris que rodeiam os pés e os beliscam de leve. Um encontro emocionante.


Subida ao ponto mais alto encanta pela flora

Quem procura caminhadas intensas, com uma imersão maior na natureza e nos mistérios da região, precisa agendar com alguns dias de antecedência uma visita à Chapada, a porção mais alta do parque. Lá se localiza a nascente do Rio Preto, o maior tesouro do lugar. São cerca de 22 quilômetros só de ida, a maior parte deles de subida. Pela distância não é possível fazer um bate-volta. Pode-se dormir na casa de Mozart, um antigo chapadeiro, ou levar barracas.
Depois de ter passado alguns dias na parte baixa do parque, a Chapada tinha alcançado contornos míticos para mim. São poucos os visitantes que a conhecem, mas os relatos eram sempre de um lugar que valia cada segundo. Agendei a subida com o guia José Hermínio Inácio, de 50 anos, há 17 trabalhando no parque. Deco, como é conhecido, foi meu companheiro e professor em várias caminhadas. Mateiro dos bons, já trabalhou como madeireiro e hoje é defensor do parque. É símbolo da mudança de atitudes e consciência do povo de São Gonçalo.
Mesmo com uma fauna diversa – nas trilhas há pegadas de lobo-guará, paca, gato-palheiro, jaguatirica, tatu-canastra e onça-parda e pintada –, o que fala ao coração de Deco é a botânica. De gostar do tema e andar com especialistas, ganhou livros e estudou. Apesar de ter cursado só o ensino primário, sabe nomes científicos das principais espécies do cerrado mineiro.
Saímos às cinco e meia da manhã, rumo ao topo do Morro Dois Irmãos. Foi emocionante perceber no percurso as mudanças na flora. O cerrado com suas árvores como o pau-pereira, a candeia, a cagaita, a gabiroba, o mandapussá e tantas outras são substituídas pouco a pouco pelas gramíneas dos campos rupestres e campos de altitude. A cada estação, a cada dia, a natureza presenteia com o desabrochar de uma flor diferente.
As lapas também são deleite nesse trajeto; espécies de grutas ou cavernas, as formações rochosas foram generosas com gerações passadas. Passamos pela Lapa da Santa, Lapa do Tropeiro e Lapa do Filó. Na década de 70, no auge do período de coleta de sempre-vivas, usadas na produção de artesanato, a Chapada chegava a ter quase duzentas famílias arranchadas debaixo delas. A Lapa do Filó, a maior, servia de abrigo para essas pessoas que faziam até cômodos, com divisórias de madeira. Nas noites de lua cheia, animados forrós iluminados com alguns poucos lampiões, eram promovidos ao redor desses salões naturais.
Passando as lapas, o espetáculo das milhares de sempre-vivas no campo, cintilando como estrelas no céu em meio a flores azuis e gramíneas dos mais variados matizes de verde. Um quadro impressionista no cerrado.
Durante toda a caminhada observa-se a imponência do Dois Irmãos. A montanha é a segunda mais alta da Serra do Espinhaço, perdendo apenas para o Pico do Itambé, com 2.002 metros. Saindo bem cedo da parte baixa do parque, entre cinco e meia e seis da manhã é possível completar o dia chegando ao seu cume. Tivemos a sorte de fazer a maior parte do caminho com o tempo encoberto. Segundo Deco, se o dia estivesse ensolarado, seria muito mais cansativo.
Quando chegamos ao cume do Dois Irmãos, o sol nos brindou com sua presença inesperada. Após um dia intenso, alguns tombos, raladas e descobertas, estava faminto. O arroz, feijão, linguiça frita e salada preparado com esmero pelos guias tiveram um sabor ímpar. Ouvindo suas histórias enquanto anoitecia, os últimos raios solares a iluminar a chapada, tive a certeza de que homens, árvores e água conservam uma pureza e uma força especial nesse canto escondido no início da Estrada Real.

 

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Água, muita água. E trilhas que levam a ela

Há muitas trilhas disponíveis para no Parque Estadual do Rio Preto. Nas atrações próximas do centro de visitantes – onde se localizam o restaurante, os quartos de hóspedes e o camping –, não é necessário estar acompanhado de guia para fazer os passeios. Para crianças e pessoas com menor mobilidade, a Prainha é a mais recomendada, recanto de águas calmas e rasas do rio.

 

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Cachoeira do Crioulo


Acessada pela mesma trilha de 13 quilômetros que leva à Cachoeira Sempre-Viva, é envolta em mistérios e lendas. A mais contada pelos guias é a do escravo fugido que fez dali seu quilombo. Escravos que trabalharam na Estrada Real e nos garimpos daquela região refugiavam-se nos esconderijos naturais, formando os quilombos. Além da Cachoeira do Crioulo, outros nomes remetem a esse período da história, como Capão dos Negros e Mata dos Crioulos.

 

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Cachoeira Sempre-Viva


É o segundo ponto de parada na trilha que passa pela Cachoeira do Criolo. Para chegar até a Sempre-Viva, é preciso caminhar beirando o Córrego das Éguas. O caminho esgueira-se por paredões de pedra, apreciando as diferentes formações rochosas vistas ao longo das corredeiras. A grande atração é a facilidade para alcançar a queda d’água, com “banquinhos” gentilmente esculpidos pela natureza.


Poço do Veado


Para se conhecer o Poço do Veado, são 2 quilômetros de caminhada moderada. O local tem esse nome devido a uma pintura rupestre que remete ao animal. Suas águas também são moradia de pequenos lambaris e enormes piabanhas, peixes endêmicos do Rio Preto. Mais adiante, na mesma trilha, existem três pontos de parada às margens do rio. São eles: Rio Lento, Vau Bravo e Vau das Éguas.


Vau significa água rasa, propícia para se atravessar um rio a pé ou em um cavalo, condição ideal para os tropeiros e garimpeiros de outros tempos. Para percorrer o trecho todo até a última parada, é necessária a presença de um dos guias – e disposição para caminhar em torno de 2,5 quilômetros.

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Poço de Areia


Também distante 2 quilômetros da base, mas em outra direção do parque, ele não tem o recorte geográfico tão impactante quanto o Poço do Veado. Oferece, no entanto, uma praia de areia mais branca e fina, com árvores provendo generosas sombras. Na sua margem esquerda, centenas de pequenas sempre-vivas aquáticas fazem uma paisagem de sonho. A flor possui diversas subespécies no parque.


Bem perto, a 200 metros, está a Forquilha, região do encontro das águas do Rio Preto com Córrego das Éguas. Tanto o Poço de Areia quanto o do Veado são ótimos para nadar. É bom ficar atento, porém, pois em ambos logo começa a não dar pé.

 

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