Jade, comércio que traz infelicidade

A indústria de jade prospera em Mianmar, mas militares e líderes rebeldes estão colhendo a maioria dos benefícios. Jade em um mercado em Mandalay

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Corrida por jade cria epidemia de HIV em Mianmar, onde o vício em heroína se espalha entre mineiros

Aos 16 anos, o filho de um comerciante de pedras preciosas foi para as minas de jade buscar sua fortuna com a pedra cobiçada pela China. Mas depois de um mês, o adolescente, Sang Aung Bau Hkum, alimentava seu próprio vício: a heroína, droga usada pelos mineiros nas selvas do norte de Mianmar.

Três anos depois, ele finalmente encontrou o que tinha vindo buscar — uma pedra de jade “tão verde quanto uma folha no verão”. Ele gastou parte dos US$ 6.000 que um comerciante chinês lhe pagou em uma motocicleta, um telefone celular e no jogo.

“O resto desapareceu nas minhas veias”, ele disse, assim como dezenas de outros mineiros em variados estados de abstinência que passam o tempo em uma rudimentar clínica de reabilitação daqui. “Os chineses sabem que somos viciados em heroína, mas não se importam. Eles só querem saber de jade.”

Sang Aung Bau Hkum, de 24 anos, agora, é apenas um rosto em um negócio — como os diamantes de sangue na África — que está transformando a boa fortuna em miséria.

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A indústria de jade de Mianmar cresce e deveria estar espalhando prosperidade pela nação, uma das mais pobres do mundo. Porém, grande parte da riqueza gerada permanece sob o controle de membros da elite das forças armadas, dos líderes rebeldes que lutam por autonomia e dos financiadores chineses com quem ambos os lados conspiram para contrabandear bilhões de dólares da pedra para a China. Tal corrupção desenfreada não apenas se apropriou de bilhões de dólares em receitas fiscais do governo que tenta se reerguer após décadas de regime militar, mas também ajudou a financiar um sangrento conflito étnico e desencadeou uma epidemia de consumo de heroína e HIV entre a minoria Kachin.

Os EUA se preocupam com a ligação entre o jade e a violência - e seu efeito na mudança democrática - e por isso mantém a proibição da pedra de Mianmar, país também conhecido como Birmânia, mesmo depois de ter suspendido quase todas as outra sanções contra o país desde que o governo civil chegou ao poder em 2011.

Grande parte do jade de Mianmar encontra-se aqui, nas montanhas do estado de Kachin, na fronteira com a China, e é o lar de uma minoria cristã que ambiciona maior autonomia.

Myitkyina, a pobre capital do Estado, é a porta de entrada para a região de mineração mais ativa, e contém o que especialistas dizem ser a maior e mais valiosa reserva de jade do mundo.

As casas de chá da cidade contam com a crescente venda paralela e ilegal de heroína

A cidade é o mais próximo que os ocidentais podem chegar da área de mineração, Hpakant. O governo diz que mantém a área fechada por causa dos combates esporádicos com o exército rebelde Kachin, mas ativistas veem um propósito mais escuso: esconder a venda ilegal de jade e de drogas. Os únicos estrangeiros com permissão de passar pelos postos de controle militar, dizem, são os chineses que administram as minas ou vão até lá para comprar pedras.

Mesmo as informações mais simples não estão disponíveis publicamente - incluindo quais empresas operam as minas. Porém, entrevistas com executivos e mineiros de jade em Myitkyina, e com negociantes, diplomatas e organizações não governamentais, revelam uma indústria vertiginosamente corrupta e brutal, quase que completamente financiada pelo comércio chinês.

As descrições das duras condições das minas foram corroboradas por imagens raras feitas por um jornalista local contratado pelo The New York Times.

O vídeo feito dentro dos postos de verificação mostra exuberantes colinas marcadas por crateras com poços de muitos metros de profundidade. Lá, centenas de homens trabalham no calor abrasador, cavando com pás rudimentares, ou com suas mãos.

É possível ver também na filmagem a área onde os mineiros consomem sua heroína, bem ao lado da mina.

Dau Hka, da ala política do rebelde Exército da Independência Kachin (EIK), disse que as mineradoras em áreas controladas pelos rebeldes “doam” dinheiro para eles.

O EIK também ganha dinheiro ajudando empresas chinesas a contrabandear jade através da selva para a China, de acordo com ativistas e um importador chinês de jade.

Porém, o ganho dos combatentes é muito menor se comparado ao da elite das forças armadas, cujas empresas recebem as melhores porções de terras para mineração, de acordo com mineiros e grupos de direitos humanos. Alguns oficiais militares também estão envolvidos em contrabando.

O comércio de jade criou um mercado para drogas entre os milhares de mineiros kachins.

Ze Hkaung Lazum, de 27 anos, disse que a heroína é vendida em cabanas de bambu “como verdura no mercado”, e custa entre US$4 e US$8 a dose. Os mineiros sentam-se a céu aberto com seringas penduradas em seus braços, ao lado de pilhas de agulhas usadas. Prostitutas esperem nas proximidades, e cobram US$ 6 por 20 minutos.

Alguns mineiros dizem que precisam da droga para esquecer seu trabalho árduo e perigoso; outros dizem que simplesmente se viciaram porque a droga estava disponível, e alguns traficantes de heroína aceitam até jade como pagamento.

Mineiros dizem que pelo menos quatro em cada cinco trabalhadores são usuários habituais de drogas. Os que morrem de overdose são enterrados perto por perto, em meio a bosques de bambu.

Ativistas kachins estimam que uma maioria considerável de jovens dessa etnia está viciada; a Organização Mundial de Saúde afirmou que cerca de 30 por cento dos usuários que injetam a droga em Myitkyina contraíram o HIV.

Como muitos habitantes locais, Tang Goon, que trabalha em um projeto antidrogas, acredita que o governo esteja distribuindo heroína para enfraquecer a insurgência étnica, e que os militares permitem que traficantes passem por seus postos de controle. “A heroína é sua arma”, disse ele.

Mas muitos ativistas de direitos humanos reservam suas críticas mais duras à China.

“A China prioriza a ganância sobre qualquer preocupação com a população local, ou com o modo com que o jade é extraído”, disse David Mathieson do Human Rights Watch de Mianmar.

O jade ocupa o imaginário chinês há milhares de anos. Até hoje, muitos chineses acreditam que a pedra afasta as desgraças e cura o corpo.

A Associação Comercial de Joias e Pedras Preciosas da China estima que as vendas anuais de jade chegam a US$ 5 bilhões, e mais da metade dele vem de Mianmar.

O embaixador da China em Mianmar, Yang Houlan, confirmou que alguns chineses estão quebrando leis birmanesas, mas disse que Pequim tenta reprimir a situação.

Ativistas duvidam disso. E, caso a China não se posicione fortemente, dizem, há pouca esperança de que as condições melhorem.

Shi Hongyue, vice-secretário geral da Associação Comercial de Joias e Pedras Preciosas da China, recusou-se a discutir os males que assolam o comércio de jade birmanês. “Honestamente, a quantidade de droga utilizada não é assim tão grande”, disse ele.

Um viciado, Mung Hkwang, de 21 anos, tremia apesar do calor, deitado no dormitório de telhado de palha do centro de reabilitação Change in Christ em Myitkyina. Seu tornozelo estava algemado na cama. A heroína, ele disse, “arruinou a minha vida e destruiu a minha educação”.

Algumas semanas depois, Mung Hkwang fugiu e morreu de overdose.

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